A partir da metade dos anos 80, a DC comics (creio que não necessita apresentações) começou a experimentar uma renovação em parte de sua linha editorial. Entendendo que seu público fiel havia amadurecido juntamente com a editora e já não se contentava com a ingenuidade multicolorida dos super-heróis que eram carro carro-chefe de suas vendas, a DC tenta atender a demanda com a publicação de material mais denso, “adulto”, como se convencionou chamar.
Esta segmentação foi alimentada, principalmente, pela contratação de vários autores do “velho mundo”: Peter Milligan, Neil Gaiman, Grant Morrison, entre outros. A responsabilidade de administrar toda a empreitada foi incumbida à assistente do editor-chefe Karen Berger, graduada em literatura inglesa, o que influenciou muito na escalação dos novos autores. Com a acertada visão de que a “maturidade” da qual necessitava a indústria dos quadrinhos viria de talentos mais afinados com a literatura, Karen investiu em autores sob este critério. A maioria da Reino Unido, pois era justamente seu campo de conhecimento.
Watchmen, Monstro do Pântano, Hellblazer, Sandman são publicações oriundas desta nova política editorial. Em contraponto às produções principais da DC, que se sustentava em heróis de uniformes coloridos (exceto pelo Batman, talvez) e altos padrões morais, os “heróis” desta linha eram ambíguos, falhos, humanizados. Se desvencilhando do maniqueísmo habitual das histórias de super-heróis, as “graphic novels” (termo criado para diferenciar os “quadrinhos adultos”) não tinham pudor em demonstrar os tons de cinza pelo qual gravitavam seus protagonistas.

Hellblazer 01, lançada ainda pelo selo DC comics
Os autores e suas obras foram aclamados por público e crítica. Watchmen, de Alan Moore, não só tornou-se um marco nos quadrinhos, como também é considerado umas das 100 principais obras LITERÁRIAS escrita em língua inglesa. E Neil Gaiman (Sandman) coleciona Eisners (o Oscar dos quadrinhos) até hoje. Com o reconhecimento, tornou-se necessário diferenciar esta linha voltada ao público maduro e, em 1993, foi criado o selo VERTIGO para abrigar as obras autorais, experimentais e de conteúdo controverso.
Porém, não é sobre o histórico da Vertigo que quero falar. Isto aqui não é para ser uma franquia da Wikipédia. A introdução é só para entender um pouco sobre ela e demonstrar sua importância no mundo dos quadrinhos. A Vertigo foi criada para a publicação de um material diferenciado para um público diferenciado. Todas as obras sob sua chancela possuem um alto padrão e eu recomendo muito.
Embora a Vertigo publique material de autores, enredos e universos diversos, existe um cânone em suas obras de maior sucesso. Sandman (e seus spin-offs), Hellblazer, Monstro do Pântano, etc. Não só há ligação eventual entre os personagens destas histórias, como elas têm em comum se referenciar no mítico de nosso mundo, e é neste ponto que pretendo viajar. Elementos do paganismo, cristianismo, mitologia greco-romana e outros relevos da cultura humana menos óbvios se tornam personagens constantes nos arcos da Vertigo. Às vezes de forma velada, como detalhe, e outras claramente, como a explícita atuação de demônios e entidades.
Pela grande quantidade de referências, este universo poderia se tornar uma salada. Mas não ocorre. Todos os elementos são pensados e colocados sem gratuidade. Não é à toa que Alan Moore, Neil Gaiman, Garth Ennis e outros são considerados excelentes autores. Ainda assim, é muito complicado falar sobre todas estas referências, pois este é um universo que se tornou bastante intrincado (são mais de vinte anos de histórias). Começarei, então, comentando sobre uma linha que conheço pouco melhor que as outras e, acredito, é um tanto mais linear. LÚCIFER de Mike Carey.

Lúcifer e sua serva Mazikeen ensaiando um tango
Então, pessoal, no próximo post começaremos a trilhar os caminhos do oculto atrás da estrela da manhã!
DLeite não é tão charmoso quanto Lúcifer nem sabe dançar tango…
2 Comentários
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Lúcifer tem aos montes em sebos pela bagatela de 1 real e nunca tive curiosidade de conhecer… Até agora…
Don Fernando é influenciável.
Semelhanças deste Lucifer com o David Bowie são apenas meras coincidencias XD