Uma imagem vale mais que mil palavras. Mas quais seriam estas mil palavras por trás de uma imagem?
Algo que a fotografia domina melhor que qualquer arte é a transitividade. Uma foto, sem o complemento textual ou de outro artifício que a localize num contexto, é uma obra cercada de reticências, que tenta congelar o efêmero, o que nossos olhos estão acostumados a ver em constância e consequência. A fotografia capta uma lâmina do que percebemos, e, com o apelo das personagens reais, é fácil partir daquele mero segundo enquadrado para todo um enredo imaginado.
Então, este é um exercício de narrativa. Pegarei uma (ou mais) fotos e tentarei imaginar os cenários e situações que envolvem aquela imagem.
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Por esperar demais
Ela já estava lá quando eu cheguei com meu jornal.
Não que me fosse de todo espanto, pois são tantas as vezes que há alguém no ponto de ônibus que à esta altura eu já deveria ter desistido de usa-lo como templo de minha solitária introspecção.
O fato é que eu gostava de ficar ali. Só ou acompanhado. Nada me importava. Aquele ponto me incitava um redescobrimento, um diálogo interno. Não importava o advindo ou destino das pessoas que passavam por ali. Eram todas efêmeras. Formas vestidas de cores que emolduravam o texto de meu jornal, ou de um livro eventual. Só o soslaio de meu olhar era capaz de intensificar suas identidades. Torna-los pouco mais que vultos. Porque eles eram os que vinham e iam, enquanto eu conquistava minha majestade ao simplesmente permanecer.
Mas não naquele momento. Ela havia captado minha atenção e invertido a prioridade de meu monólogo interior. Sentada com recato, mas paramentada com requinte, toda sua figura afinava com a atual moda padrão. Vestida bela e combinada, mas tão repetitiva que mais serviria para camufla-la entre a multidão do que destaca-la como ela poderia querer. A única concessão que destoava do conjunto era seu chapéu, escondendo os olhos e dividindo suas madeixas castanhas, que cascateavam sobre seu rosto deixando à vista a única evidência que justificava meu encanto. Seu queixo fino e singular.
Todo meu exame foi devidamente dissimulado com o jornal aberto sobre minha face, exceto em um ângulo estratégico por onde poderia fita-la sem ser percebido. Mas toda minha manobra teria sido desnecessária. Ela estava inerte. Compenetrada. Apenas o suave mover de seu peito à cada profunda inspiração indicava vida.
Toda aquela contemplação me deu um profundo sentimento de melancolia. Estaria ela triste?E, se sim, qual seria a tragédia tão grande a ponto de minar toda sua reação? Seriam a bolsa e a sacola de compras que carregava indícios duma falida tentativa da terapia mais comum às mulheres naquele estado?
Antes que eu elucubrasse mais hipóteses, vejo, envergando-se na esquina, um ônibus. Lentamente ele toma a avenida em frente ao ponto em que estávamos. Sem trânsito algum, a rua torna-se uma passarela, e o ônibus avança com a sutileza de quem expõe uma veste, embora sua pintura avermelhada estivesse calcinada com o cinza da poluição urbana.
Quando o ônibus se aproxima de nós, a mulher se levanta. Seu levantar é tão peculiar quanto o que pude ver de sua face. Foi como se uma mão invisível a puxasse de seu transe pelo esterno, erguendo seu peito antes de seus ombros, obrigando-a a se levantar. Mas, mesmo parecendo alquebrado e estranho o movimento, ela o desempenhou com a leveza de uma bailarina, suavemente jogando o pescoço para trás, como ensaiando o impulso para um giro no ar.
Ela se moveu, lentamente, para a ponta da calçada. Ergueu seu braço pedindo a parada como se a mesma força fantasmagórica impelisse a isso. Eu fiquei um tanto irrequieto com a situação. Ainda que, provavelmente, ela não houvesse me notado, senti como se seu levantar fosse uma fuga. Era a primeira vez, em tanto tempo que estive naquele ponto, que deixei de ler meu jornal para reparar em alguém. Embora eu não tivesse soltado um suspiro que expusesse minha atenção à ela, embora todas as loas que dediquei àquela mulher tenham nascido e morrido dentro de minha cabeça, senti sua atitude como uma evasão grosseira. Eu, o “todo senhor” daquele canto de banco, que conquistou e defendeu àquela porção de madeira por anos, mereceria, ao menos, um aceno daquela ninfa em agonia.
- Boa viagem! – Disse, tentando incutir uma nota de desdém e me surpreendendo com a sinceridade que tomou a frase.
Ela estaca quando ouve. Seu braço cai de lado e seus ombros arqueiam, como se tivesse desistido de tudo em um segundo. O ônibus, que havia reduzido ainda mais o seu desfile para engolfar seu passageiro, torna a andar na velocidade da ribalta anterior.
E eu, como um menino que acaba de quebrar uma vidraça, fico olhando sua consternação, sem entender nada, além de minha culpa por algo.
- Por que você disse isso? – Finalmente, depois de um longo segundo, ela revela sua voz, delicada, mas fria e cortante como uma lâmina
- Eu… – tropeço nas palavras – Eu… Apenas desejei uma boa viagem… E só…
- Não! – Retruca ela, com um tom de voz que lembrou me minha mãe com a chinela na mão. -Você esperava que eu entrasse no ônibus. Por quê?
- Bem…Você se levantou…Pediu para ele parar…Sei lá! Eu imaginei que você entraria…
- Eu não sabia que entraria naquele ônibus – Sua voz cresce em um tom revoltado – Mas você…Você esperava por isso
- Olha, garota – Tento reagir a agressividade dela, mas minha voz oscilou tanto quanto um metrônomo – Aquele não era seu ônibus? Que me importa se você entraria ou não? Eu só tentei ser educado!
- Não… Aquele não era meu ônibus – Ela se resigna, voltando a aura de tristeza. – Não há ônibus que me leve para onde vou…
Ela vira um tanto seu rosto, e suas melenas descortinam seus olhos. Envolto em borras de maquiagem, que não resistiram a um possível pranto, duas jóias castanho-claras ainda brilhavam úmidas. Ela sai de seu ponto na calçada e se joga novamente no assento de onde havia se levantado.
- Olha – Sentindo-me culpado, mesmo sem saber ao certo o porquê, tento consola-la. – Esta linha passa aqui de quinze em quinze minutos. Você não chegará atrasada…
- Não é sobre chegar atrasada… – Ela meneia a cabeça, negativamente – Não é sobre que ônibus pegar…É sobre não escolher…
- Como?
- Eu estive por horas aqui, esperando – A voz dela estava embargada – Esperando o nada. Esperando até o momento em que não precisasse esperar mais. Em que simplesmente algo me fizesse andar. Me enfiasse dentro do ônibus. QUALQUER ônibus, e me levasse para onde fosse…
- Mas…por quê?
- Você não entenderia… Ou talvez, entendesse…Eu já criando conclusões, que é o inverso do que quero.
- Bom… Você pode me dizer algo ou se calar… Se disser, existe a possibilidade de que eu possa ajuda-la. Se calar, nada muda. Uma das alternativas você já conhece…
- … -
Ela se cala por um momento, mas um soluço, profundo, externa sua miséria quase fisicamente. Ela, então, ameaçada pelo seu corpo, decide falar.
- Isso sou eu…uma malha de expectativas, tendo seus fios puxados por todos os lados, até se desmanchar. Não importa o quanto você acredite ser independente e livre. Você é feito de esperas. Pessoas que esperam algo de você, e você, que espera por outros e por si. O problema destas esperas é que elas não se concretizam, pois a todo momento uma escolha é necessária. E escolher é desistir de todas as outras alternativas. Nunca nenhuma escolha é boa o suficiente, pois será sempre ofuscada pelas possibilidades do que poderia ter sido. É este o calvário que não consigo lidar. Você escolhe pelo que você espera, pelo que esperam de você. Mas toda escolha não é tão decisão quanto é desistência.
- Mas…O que você esperava pegando um ônibus a esmo?
- Eu não esperava NADA! Eu só queria seguir o fluxo. Pegar um ônibus sem conhecer o destino, sem esperar momento certo nem sinal. – Ela para, enxuga as lágrimas, borrando ainda mais as sombras de seus olhos. – Mas você. Você me viu levantar. Você esperou que eu pegasse este ônibus, ao invés de me ignorar. Você concluiu algo sobre mim. E se de início isso já acontece, meu caminho novamente está determinado.
- Olha…Eu até entendo o que você quer dizer. Mas não vou pedir desculpas por nada. Esta sua “jornada” sem rumo já estava alinhada, e não foi por minha expectativa. Ou não foi você, escrava de seu querer, quem decidiu não decidir? E esta bolsa, sacola… Se você quer se surpreender, o que você carrega preparado?
- Isso? – Ela para sua bagagem e as abre, mostrando seu interior. – Isto são meus despojos. O que eu iria deixar pelo meu caminho.
O interior, tanto da bolsa quanto da sacola estava coalhado de fotografias.
- Esta é a dicotomia que pretendo solucionar. Aqui – ela mostra as fotos dentro da bolsa – Estão as imagens de quem esperam que eu seja. - Várias fotografias bem tiradas, de festas e bailes, com ela sorrindo, maquiada, bem vestida. Parecia quase impossível imagina-la naquele humor até então.
- Não importa o que se passa realmente com você – Ela continua – Não é isto que as pessoas esperam. Elas esperam que você possa sorrir por três segundos, que faça graça, que faça pose, que dance por toda noite. Como uma peça de montar, você precisa ser plástica e ter a forma que se encaixe.
- …
- E esta, sou eu – Ela mostra o conteúdo da sacola, todas fotos amadorísticas, mal enquadradas e em momentos inoportunos. - Eu quando acordo de manhã, eu depois de uma ressaca, eu no banheiro e eu chorando litros depois de minha demissão. Todas estas fotos eu tirei sozinha, pois ninguém estava ao meu lado sequer para segurar a máquina. E isto porque assim escolhi e não porque assim esperava. Tudo isso, o que sou e o que esperam que eu seja ficaria pelo itinerário do ônibus. O que restasse no final seria eu, mas um eu que não sou agora.
Então, era aquilo. Uma moça jovem e bela que havia mergulhado numa crise existencial. Eu, disposto a ajuda-la com uma crise de namoro ou por ter ganho alguns quilos, mas ela desencavava esqueletos filosóficos.
- Bem. Não vou lhe dizer que isto passa. Porque não vai passar. Não enquanto você não desistir até mesmo disso. Eu só lhe pergunto, você acha mesmo que sua liberdade está em não escolher, apenas para conservar o potencial de tudo? Eu…não creio. Aliás, esta é justamente a decisão que sacrifica todas as outras. A de ficar pelo caminho. Você vai escolher, sempre! Mesmo desistir é uma escolha. Os caminhos que você escolheu para trilhar denominaram também os que você escolheu não trilhar. Não existe tal coisa de voltar atrás, e você, ao insistir em contemplar o que foi, deixa de perceber os vários horizontes possíveis do caminho já escolhido. E quanto ao que você é e o que esperam que você seja…- Sob seu olhar curioso, eu pego todas as fotos da sacola e misturo com as da bolsa. – Por que se limitar? É essa sua percepção de que você se divide em duas metades que a fere, que obscurece sua visão para o fato que você é dois inteiros, ou ainda, tudo o que for necessário. - Eu chacoalho a bolsa, misturando ainda mais as fotos. - Esta é você. O que você é e o que precisam que você seja. Todo mundo caça o ser verdadeiro, o ser único, mas ninguém parece perceber que mais importante que o QUE somos é QUANDO somos. Você é o que você dedica aos outros e o que você dedica a si. A soma disso, e não só uma face.
Ficamos calados por um instante. Ela ajeita seu cabelo revelando, finalmente, toda sua face, provando que eu a tinha desarmado. Ainda havia rugas de seu conflito, mas já denotava alívio suficiente para suavizar os delicados contornos de seu belo rosto.
- É…eu acho que você tem razão. Ou talvez ambos esperemos isso – Ela ensaia um sorriso. Mas, ainda assim, eu estou esperando um ônibus. Ainda assim, tenho um passado a descartar. A diferença, agora, é que estou escolhendo isso. E esperando pelo que vier depois.
Mais alguns minutos, ficamos em silêncio, até novamente surgir um ônibus na esquina.
- Então? É este seu ônibus? – Pergunto
- Eu não vi o destino…mas é. É ele, sim.
Ela sobe no primeiro degrau, hesita um instante, e então olha para trás e agracia-me com um sorriso mostrando todos os seus dentes. Agora ela fazia jus às primeiras fotos que me mostrou
O ônibus parte, emoldurado pelo halo do crepúsculo no fim da avenida. Eu volto para meu trono e abro o jornal.
Bem, o que as notícias me reservam hoje?
@Dleite42
3 Comentários
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Nossa, gostei XD
Surpreendido. Foi como vi-me quando li a última palavra. Jony, sou, a partir de agora, um grande admirador da sua arte. Já admirava antes, mas agora eu redescobri-te e espero surpreenderme ainda mais.
Um forte abraço.
http://www.physispoesis.wordpress.com
“David, sabe que há muito admiro seu estilo, sua bagagem literária e sua forma de lidar com os temas. Não é o tipo de leitura que me agrada (depois te dou minha opinião, se te interessar), mas é INEGÁVEL sua sensibilidade. Parabéns mesmo, não deixe a arte de lado, por mais que você esteja mergulhado no mundo dos jogos agora.”