Política, Religião e Futebol

 

Uma das máximas populares mais reconhecidas é a que versa que “Política, Religião e Futebol não se discutem”. Na realidade, esta frase serve só para pontuar o resultado infrutífero de um debate que sempre se alonga quando um dos três temas vêm à tona. Porque se discute, e muito, sobre Política, Religião e Futebol (conservando as maiúsculas para o bem da ironia). A única questão é a baliza destes discursos, que é completamente equivocada em pelo menos dois destes temas.

Política, limando as ambiguidades e contextualizando-a na nossa realidade de República Democrática (porque mesmo uma ditadura é uma forma de política), é a ciência sobre a administração, direção e organização de um Estado. Como República Democrática, os interesses para quais as instituições políticas devem mirar quando atuam é para o bem coletivo de um povo que ela própria representa, pois foi previamente provida de poderes por este mesmo povo.

 

Como disse anteriormente, CIÊNCIA. É um campo de conhecimento, que segue as premissas da razão para definir suas estratégias com maior eficiência. E por que é deste modo? Porque o resultado do método científico é mensurável e previsível. Portanto, quando lidamos com dados concretos, exatos e existentes (o que vai desde a administração de nossa extensão litorânea até quanto é preciso ser gasto para criar uma estrutura educacional), devemos lançar mão de nossa mais correta forma de pensar, que vêm de embasamento e empirismo. Um simples exemplo do resultado desse método está na sua frente. Um computador, um dispositivo de absurdo potencial, que foi criado em uma escalada de conhecimento aplicado. O exemplo para a outra forma de pensar seria a “idade das trevas”, que não tem esse nome pelo quantidade de fãs do The Cure ou do Joy Division.

 

Mas, infelizmente, pela própria dinâmica do método, não existe unanimidade quando se fala em teoria política. Cada ideologia possui sua base de conhecimento, sua metodologia e suas prioridades . Apenas se se permitissem um debate sincero, onde o argumento têm seu próprio valor e a discussão tivesse o sentido de lapidar melhor o conhecimento acerca das grandes necessidades, dos poucos recursos e da melhor atuação no que compete ao governo é que teríamos não a bandeira de um partido, mas sim o tripé que sustenta uma política realmente relevante.

 

Mas pedir um debate nestes moldes é um luxo muito grande, não? Nossa vida política (e por conseguinte, em sociedade) está tão “poluída” pela futilidade, pelo bandeirismo e pelo individualismo que todo o processo eleitoral se cunha nessa caricatura toda. Política é uma palhaçada? Não se anime muito ao proclamar isso, pois a palhaçada da política é só um tom de vermelho mais forte do que nossa sociedade é.

 

Esse show de horrores, que culmina no dia de Halloween (ah, eu vejo poesia nisso…) é o reflexo de que o que é pertinente acerca de política vem sido ignorado. Entre “Fareis” (não explicando o como) e “Não Fizes” e “Não Vis”, nossos noticiários se coalham das mais irrisórias questões, numa tentativa de gerar moção sobre insignificâncias em que a passionalidade inerente à situação age como lupa.

Porque, quando você precisa de uma maioria para validar-se em seu cargo, e essa maioria não possui maturidade suficiente para separar as questões por uma ótica racional, constatando fatos e analisando propostas, é natural que se use todos os artifícios persuasivos que apelem para a emoção ao invés do crítico, tal como uma boa publicidade (e eis aí o único método racional explorado à exaustão).

 

Dessa estratégia surgem Tiriricas e Mulheres-Pêra, que servem de imãs para votos simpáticos à eles e/ou antipáticos a todos os outros e, de quebra, puxam uma série de candidatos que nem sequer precisam mostrar as caras (e que, certamente, nem conviria). É daí que uma bolinha de papel (ou fita crepe, os peritos não entraram em consenso) vira pivô de um debate filosófico-sociológico sobre agressão antidemocrática e crescimento da grama. É daí que se usa a Religião, com toda sua experiência em aliciamento, para manifestar seu apoio numa esfera em que o debate já anda combalido, como ocorreu hoje com a manifestação do Papa…

 

É engraçado que Religião e Política não se discutem, embora elas dialoguem tanto entre si. Aliás, em todo o processo eleitoral, o maior fantasma desta eleição foram as questões que poderiam se tornar impopulares em determinado meio religioso. No meio cristão, para ser mais exato. Ainda que o Estado seja laico, a quantidade de eleitores representada pela instituição religiosa (que em muito se assemelha aos sindicalistas) não é fácil de se ignorar, e diz duas coisas sobre democracia. A nossa versão, pelo menos.

 

a) – Mais determinante que o “bem coletivo” é “o poder da maioria”. Sim, porque embora a questão do aborto seja extremamente delicada, algumas outras questões que são, evidentemente, corretas e deveriam ser respeitadas pelo bem individual são condenadas por esta mesma instituição que não se permite questionar, pois baseia-se numa verdade atemporal e possui um contingente moral forte o suficiente para definir uma eleição (como a questão da camisinha ou contra a homofobia);

b) – O debate, nos moldes da argumentação lógica, do confronto de idéias e do enriquecimento de opinião que propus está ainda mais distante enquanto uma moral enviesada de verdade inconteste se coloca sobre qualquer discurso que não atine com seus preceitos.

***

Enfim. É por uma extrema irresponsabilidade ou tamanho oportunismo que o Papa Chico se manifeste, como se já não tivesse sido o bastante os Bispos da CNBB terem o feito antes (e demais igrejas evangélicas Neo-Pentecostais, mas oportunismo é o negócio delas, então sem novidade). Oportunismo porque somos o maior país católico, e é pelo menos uma demarcação de território o que ele deve ter tentado aqui (reminiscência de tática nazista? o.O). Irresponsabilidade pois sua postura contribui ainda mais o misturar de “alhos com bugalhos” no que já é esta eleição.

E quanto ao Futebol. Bem, da forma que se debate, envolvendo a paixão muito mais do que a razão, dos três temas é o único que está no lugar correto. Se existe alguma justiça neste mundo, a “política” evoluirá de tal modo, vestindo a camiseta de time como está, que o próximo candidato a fazer uma tomografia será vítima de um rojão, e não de uma simples bolinha de papel.

E eu espero que seja de 12 tiros.

@Dleite42

1 Comentário

  1. O povo se rebelou pra poder votar mas não sabe escolher seus representantes. Triste U.U


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